" sentamo-nos os dois . o frio , perpendicular , abafa qualquer comiseração . sempre vagabundos de nós , tudo nos falta menos a rua . esta noite um som ecoa , a luz , acre , levanta o peso do calor , e eu não sabia , calada e não refeita , de teu sono vigilante que já não me pertence . no quarto anterior , dormias em meu ventre , hoje o tronco no colchão firme recusa um qualquer sincronismo com o meu desejo . somos luz comum , porém , caminho idêntico e diverso , o que atrai e repele , breve hesitação a minha , a de quem transporta o recém-nascido a um ritmo novo . se eu chamar tua voz para meu lado , arranco a flor mutilada à superfície da água . mas teu labor é nocturno , ponto instável , díspar ; a dúvida , uma interrogação insidiosa . era um segredo , o nosso, amor lento , corpo que nos cerra e mais tarde se extingue . se espreito , o menino morre . fecho então os olhos , e aprendo a ler sobre o texto o longo breve rio entre ti e o outro , o sentido da inverosimilhança , a ausência radical e lisa . vou envelhecer tentando segurar a maternidade no peito . "
ana marques gastão
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